No dia 10 de abril de 1957, na cidade de Uruguaiana, na fronteira oeste do RS, eu tive que me acordar e me levantar as 6,30 horas da manhã. Estava frio e escuro ainda. Vontade de permanecer na cama quentinha. Minha vó Bibica não deixou. Eu era mimoso dela. Me fez o café com leite, pão com manteiga, e me botou pra fora de casa. Tinha que entrar no Banco do Brasil até às sete horas. Era o meu primeiro dia de trabalho. Foi há sessenta anos atrás, mas lembro como se fosse hoje.
Naquele prédio da esquina, o menor, era a Agencia do BB
em Uruguaiana em 10-04-1957
Eu tinha dezoito anos de idade. O concurso público para auxiliar de escrita fora em dezembro. Passei sem dificuldade. Logo depois fiz o vestibular para Direito em fevereiro. Também passei. A Faculdade era em Porto Alegre mas a frequência naquela época era livre. Bons tempos.
Da minha casa, que ficava defronte à praça principal da cidade, até ao banco , eu tinha que caminhar cerca de cem metros, de esquina a esquina da mesma quadra., da rua Duque de Caxias. A entrada ficava na rua Bento Martins., na parte de trás do edifício. Cheguei e entrei timidamente. Fui recebido pelo David Carvalho, chefe da portaria, com um sorriso amistoso.
-Assina aqui a folha de presença. Tem cinco minutos de tolerância. Se chegar atrasado vai assinar a folha suplementar. Cinco folhas suplementares equivale a uma falta. Seja pontual, meu guri.
Fui encaminhado para o Contador, Walter Ennes, sisudo, de poucas palavras e quase nenhum riso, só fachada, por dentro era boa gente e depois ficou muito meu amigo.
- José Bernardo, vais começar pelo pior lugar. É a praxe. O setor de cobranças. É chamado de purgatório. Depois disso tudo melhora. É um teste de resistência.
- O que faço ?
- Vais atender a clientela no balcão. Quem paga no vencimento é barbada. Só tens que pegar o registro e o título, encaminhar ao caixa e pronto. Quem paga com atraso tens que pegar a FACIT , calcular os juros de mora, lançar no registro e mandar para a Caixa. Simples assim. Só complica nos dias 30 e 31, final do mês, quando o movimento aumenta e tens de dar conta do recado.
- Só isso ?
- Tem mais umas coisinhas. Por exemplo, ficarás responsável pela venda de estampilhas. No final do dia tens que prestar contas.
Fiquei pensando comigo o que era estampilha. Palavra esquisita. Depois fiquei sabendo que eram aqueles selos compridos que tinham que ser colados na fatura e datados.
Também me deram uma coleção de carimbos e uma carimbeira. Tinha que botar carimbo de data em tudo. E a carimbeira servia também para botar o dedão dos analfabetos, que eram muitos na época.
O Contador, após esses esclarecimentos, me encaminhou para o Gerente da Agência, o inesquecível Aldo Ibanos, que me deu as boas vindas, me disse que esperava bastante de mim, e me passou para o Departamento de Funcionalismo, que ia cuidar da minha carteira profissional, de meu contrato de trabalho, revelar quanto eu ia ganhar e me orientar sobre a Cassi. Fui atendido lá pelo meu querido colega Glicério Midon, que está comigo nesta foto tirada há poucos dias.
Sessenta anos depois, com o Glicério Midon (88 anos)
E foi assim que iniciei meu primeiro dia de trabalho no BB. Meu primeiro atendimento foi de um comerciante que chegou com quatro títulos para pagar, naturalmente todos com atraso, exigindo o uso de saída da máquina FACIT., que tinha que dar manivela para frente e para trás. Não foi fácil. O comerciante impaciente com o guri que estava iniciando. Eu nervoso querendo agir rápido. Pensei comigo: não vou durar nesse emprego.
E segunda feira, dia 10 de abril de 2017, está fazendo sessenta anos ! Uma verdadeira epopeia. Obrigado meu Deus e a todos os colegas que me ajudaram em minha carreira. Que ainda não se encerrou !







